quinta-feira, 9 de novembro de 2023

A Humanidade que há em nós

 Aviso: este texto contém spoilers do anime e mangá HunterxHunter.

Quando nos deparamos com frases como: “seja mais humano”, “isso foi muito humano da sua parte”, “precisamos de mais humanidade”, por exemplo, já entendemos que “humano” e “humanidade”, nesses casos, representam não ser uma pessoa de carne, osso e habilidades mentais, emocionais e afins, mas ser essência. Ser caridoso, compassivo, amável, bondoso.


E isso está até nos dicionários. Vejamos, a palavra humano significa relativo ao homem ou próprio de sua natureza e condição; que mostra sentimentos de compaixão, benevolência ou solidariedade; criatura; homem; indivíduo. E humanidade é a qualidade do que é humano, sentimento benévolo e solidário em relação aos outros.


Mas será que realmente somos bons em nosso âmago? Há quem diga que o homem é o lobo do homem. Também falaram que o homem nasce bom, mas que a sociedade o corrompe. Uns chegaram no consenso de que o homem tem tendências tanto más quanto boas.

Fato é que nós, sendo dotados de toda a nossa humanidade, somos capazes de fazer coisas extraordinárias. O avião, a arte, as vacinas, a internet. Ao passo que também criamos atrocidades. A bomba atômica, o preconceito, a escravidão, a internet. Considerando isso, a definição de ser humano deveria estar conectada necessariamente à bondade?

Yoshihiro Togashi, mangaká, nos faz a mesma pergunta, e muitas outras, em sua obra HunterxHunter, sobretudo no arco Quimeras Ants (ou Formigas Quimeras) publicado entre os capítulos 186 e 318 do mangá, e veiculado, através do anime de 2011, dos episódios 76 ao 136.


As formigas quimera são uma espécie fictícia de inseto, considerada uma calamidade, cuja rainha se reproduz através de um método curioso: ela devora seres vivos (inclusive humanos) e gera em seu ventre uma mistura, por assim dizer, desses seres. Por exemplo, quando ela se alimenta de um leão e um ser humano, nasce um híbrido desses dois. Depois de criar soldados para o seu ninho, a rainha começa a gestar o rei, que deve ser a máxima evolução de toda a espécie.


Como no universo de HunterxHunter há os “hunters”, que são humanos com habilidades sobrenaturais, específicas e diversas, a rainha e seus súditos entendem que o rei será o ápice entre todas as criaturas caso sua gestação seja regada à carne e sangue dos tais.


Entre os desafios paralelos da trama, nasce Meruem, o rei destinado a governar o mundo inteiro (não somente as quimeras), que sente a necessidade de se alimentar de humanos e hunters para aumentar ainda mais a sua força, sabedoria e poder, que já são descomunais. Portanto, toma um palácio e faz dele seu armazém de carne humana. E, ao ser questionado por uma de suas vítimas, ele pergunta algo como: “não é o que vocês, humanos, fazem com porcos e gado?”. Com isso, o autor esboça parte de um grande ponto de interrogação que vai se formando ao longo da saga: somos mesmo muito diferentes das quimeras?


Como ideia de sua guarda-real, o rei reunirá todos os habitantes de uma nação para selecionar os que serão descartados (e mortos), devorados ou transformados em quimeras, que servirão de soldados. Mas enquanto aguarda a população, hipnotizada, chegar ao palácio, Meruem se entedia e começa a enfrentar campeões mundiais de diferentes jogos de tabuleiro, até se deparar com Komugi, especialista no jogo fictício gungi, uma moça ingênua, cega, que nunca havia sido tratada com dignidade e que, diferentemente dos outros oponentes do rei, não se deixou derrotar uma única vez. Com o passar dos dias, ambos se apaixonam (embora não percebam) e as certezas megalomaníacas e cruéis de Meruem começam a vacilar. Por que vencer não era mais importante? Por que ainda não matou sua adversária? Por que queria protegê-la? Ele realmente teria que dominar o mundo? No entanto, antes mesmo de ele começar a entender o sentido de sua própria existência e o que estava sentindo, um grupo de hunters invadem o palácio e, acidentalmente, ferem Komugi. O rei não entende seus sentimentos excruciantes a princípio, mas aparenta desespero e total desolação. Sem mencionar qualquer desejo de vingança, ele dedica à Pitou, membro de sua guarda-real, a responsabilidade de curar e proteger Komugi enquanto ele se afasta, junto ao presidente dos hunters, Netero, que o desafiou.

Meruem e Netero partem para um deserto utilizado como local de testes bélicos (para se ter uma ideia do poder e capacidade destrutiva de ambos) e, ainda que Netero tenha ficado impressionado em enxergar a humanidade do rei quimera carregando, quase como se estivesse de luto, uma Komugi ferida nos braços, e mesmo Meruem manifestando que não quer lutar, mas, sim, conversar e debater ideias, o presidente dos hunters não dá trégua e tenta, de todas as formas, matar o rei. Com golpes baseados em sua religiosidade e misticismo, Netero alega que é possível sentir o amor incondicional em seus ataques. Amor esse que, ironicamente, busca a morte de um inimigo que já não queria mais lutar.



Ao final da batalha, percebendo que não conseguiria matar Meruem, Netero acionou uma bomba atômica que estava implantada em seu próprio coração e carbonizou a si mesmo e a Meruem. Me arrisco a dizer que a humanidade matou ambos.


Posteriormente, a guarda-real consegue ressuscitar Meruem e salvar Komugi, mas acabou sendo tudo tarde demais. A bomba que Netero carregava continha um veneno contagioso que mataria, em algumas horas, Meruem e todos que ficassem próximos a ele. Portanto, numa cena digna de Romeu e Julieta, com um diálogo carregado de emoção e absurdamente triste, sem qualquer trilha sonora e imagem, Meruem (apaixonado, arrependido de suas ações e disposto a mudar se houvesse tempo) e Komugi (por escolha própria) morrem juntos, envenenados, jogando uma última partida de gungi e sentindo-se, pela primeira vez em suas curtas e desventurosas vidas, felizes.





Finalizando a saga, não é possível dizer com convicção quem é o vilão: o rei formiga ou o presidente dos hunters? 

Quem foi mais humano: Meruem, que se arrependeu e sentiu que se vivesse para amar Komugi, nada mais importava, ou Netero que, a todo custo, tentou matar o que ele julgou ser ameaçador e diferente, sem dar chance à compreensão, caridade e remissão? 

Qual foi mais cruel: Aquele que um dia ansiou, através da morte alheia, o aumento de seu poder, ou quem implantou uma arma de destruição em massa em seu próprio coração?


O que faz de nós, humanos, tão diferentes de Meruem? O que a humanidade tem que a torna tão superior e louvável? Somos tão honrosos e respeitáveis assim? Afinal, o que é ser humano?









segunda-feira, 27 de março de 2023

Chi no Wadachi: Uma Mãe Para os Famintos por Terror Psicológico!

    Chi no Wadachi (Trail of Blood; Blood on the Tracks), mangá de Shūzō Oshimi, é diferente de muito do que já se viu, nos apresentando uma história cabulosa, de arrepiar os cabelos e de causar todos os desconfortos possíveis e inimagináveis.


Capa do 1º volume

    Pode ser que você já tenha conhecido alguma criança ou adolescente cuja mãe era bastante superprotetora, chegando a incomodar, sufocar e a sugar toda a energia vital do filho ou filha. Bom, é assim que começa a saga de Seiichi Osabe, um garotinho com uma mãe, à primeira vista, muito amorosa e dedicada que só quer o melhor para o seu filho, salvando-o de todos os perigoso do mundo real, mas que é dona de uma personalidade nociva, mórbida e cruel.

    Horários cronometrados para realizar quaisquer atividades, controle de quem poderia ou não fazer parte do ciclo de amizades e forte manipulação de como pensar e sentir, faziam parte da rotina do garoto. Ele estava habituado e não compreendia como aquilo impactava sua vida, fazendo com que, nos primeiros capítulos, você se pergunte o quanto as crianças precisam ser protegidas da realidade e até que ponto os pais devem invadir a privacidade dos filhos e persuadir sua forma de ser.

Mãe incomodada com o filho    Mas, após a estranheza inicial - que não é pouca -, o autor logo te impacta com a morte de um primo de Osabe e entre uma investigação policial para descobrir o assassino (e se há um) e sua motivação, Shūzō Oshimi muda todo o cenário, à priori, estranho, para cenas, diálogos e situações extrema e absurdamente desconfortáveis e assustadoras. 

    A mãe, que já era bastante controladora, vai ficando cada vez mais possessiva, manipuladora e assombrosa, enquanto o pai segue em seu jeito relativamente obtuso e omisso, e o filho, à medida que cresce, se esvai, tornando-se um menino doentio, agressivo e ao mesmo tempo apático, diante das tentativas frustradas de pensar, agir e ser livremente. 


Osabe em fundo escuro, caminhando
Quadro presente na obra de Shūzō Oshimi



Cap. 42 - Osabe sendo abordado por sua mãe
    Os capítulos avançam e a arte impressiona por retratar, com maestria, através de expressões faciais e cenários sufocantes - com incríveis tons de preto e cinza, contornos e traçados que transmitem desespero e horror - a loucura da mãe e os pensamentos confusos e adoecidos do jovem Osabe, que se vê preso em si próprio, com sérias dificuldades de distinguir a realidade da imaginação, a verdade da mentira. E nós leitores vamos nos perdendo com ele, vamos nos questionando se o que vimos e lemos aconteceu, de fato. Nós nos atropelamos, junto ao garoto, no imenso e sombrio labirinto de dúvidas, medos e desesperança.

    Às vezes, temos o vislumbre de uma luz no fim do túnel, como quando Osabe começa a se desprender de sua mãe aos poucos, por meio de um relacionamento com uma garota, Fukiishi, que tem uma vasta bagagem de problemas e traumas e que não é nem um pouco benquista pela sua mãe. Porém essa acaba sendo apenas mais uma porta que a mãe não só fecha, como tranca, solda e age como se ela nunca tivesse existido, quem dirá, sido aberta um dia.


Desespero de Seiichi Osabe retratado no quadro
Seiichi Osabe em desespero, com dificuldade de se expressar


   
    
Mãe e filho se encaram de forma incomum e assustadora

    
A mãe quer que todos os pensame
ntos, sentimentos, vivências e a essência de Osabe pertençam a ela e sejam sobre ela, além de querer ser tudo: amiga, confidente, provedora e, sim, namorada. A mãe quer ser o objeto de desejo total dele (em todos os âmbitos) e não admite que o filho é um ser independente, fazendo o possível e o impossível para que ele permaneça manipulável e fraco mental e fisicamente. E o garoto, por sua vez, cede sempre. Ainda que tenha que lutar consigo mesmo e rasteje entre seus conflitos internos, ele prefere se render aos braços de sua idolatrada.
    
    
    Em meio a muitas situações asustadoras e torturantes, que beiram o sadismo e que vão te acompanhar durante o dia (ou noite), Osabe cresce, sua mãe envelhece e como o relacionamento entre eles se desenvolveu ao longo desse tempo? Como está a "saúde" mental do pobre Seiichi Osabe? Como o mangá, ainda em desenvolvimento, vai seguir? Nos resta acompanhar a saga escabrosa e horrível de Chi no Wadachi, um dos melhores mangás de terror psicológico já feitos. Inclusive, foi vencedor, em janeiro de 2023, do prêmio de "Melhor Série" no festival francês Angoulême.

    Infelizmente, o mangá ainda não foi publicado por nenhuma editora brasileira e não há rumores de que poderá ser adaptado ao formato de anime. Desde 2017, Chi no Wadachi tem sido veiculado pela revista Big Comic Superior e conta com 14 volumes até o momento.

    Para quem quiser começar a ler Chi no Wadachi, tenha a certeza de que se trata de uma obra que merece ser apreciada e reconhecida, pois, além do enredo macabro e interessantíssimo, os diálogos e monólogos são muito bem construídos e a arte é de revirar o estômago e tirar o fôlego.

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Éramos Jovens Na Guerra...

Lançado no Brasil em 2013, fruto de inúmeras e empenhadas pesquisas feitas por Sarah Wallis e Svetlana Palmer, Éramos Jovens Na Guerra foi, sem sombra de dúvida, um dos livros mais intensos que li.
A maioria dos livros sobre a Primeira e a Segunda Guerra nos mostram apenas uma das diversas facetas desses conflitos, seja sob o ponto de vista de um judeu ou de um soldado aliado ou do eixo, mas, Éramos Jovens Na Guerra nos apresenta a guerra sob várias perspectivas diferentes, já que a obra reúne diários e relatos reais de 16 adolescentes que viveram durante a Segunda Guerra Mundial.
Uma garota francesa, um judeu preso num gueto polonês, um soldado nazista e outro britânico, um kamikaze japonês, uma jovem cidadã japonesa, uma russa rebelde, um menino judeu vivendo nos Estados Unidos, uma moça, um rapaz... Histórias de vida de vários jovens, de várias nações que sofreram, mesmo que de forma indireta, os impactos da guerra. Os relatos deles são extremos, intensos e emocionantes, que nos revelam os pensamentos mais profundos de adolescentes fragilizados e torturados (física e mentalmente) e forçadamente amadurecidos pela guerra.
Luta por sobrevivência, condições desumanas, esperança, política, medo, fome, miséria, força, cinismo, coragem, determinação e covardia são os principais temas encontrados nos diários dos 16 jovens.
No livro, entendemos (mesmo que não concordemos) as motivações de várias atitudes bestiais, e bondosas, também.
Muito além do holocausto, do nazismo, dos romances proibidos... Éramos Jovens Na Guerra nos mostra o lado humano dessa fase tão aterrorizante e indescritível enfrentada pela humanidade.

Chick Lit! Fiquei Com Seu Número é um romance moderno!


Sophie Kinsella é a autora do primeiro chick lit que eu li na vida, o divertido Fiquei Com Seu Número, publicado inicialmente em 2012.
Uma ressalva, chick lit's são comédias românticas normalmente protagonizados por mulheres independentes e modernas que se metem nas mais hilariantes enrascadas para resolver seus problemas.
Subestimei Fiquei Com Seu Número, escolhi lê-lo pela capa rosa chamativa e não me arrependi nem um pouco!
É um livro muito engraçado que conta a história de Poppy Wyatt, uma mulher incrível, divertida e um tanto maluca, que está noiva de um galante e rico professor universitário. Ela foi presenteada por ele com um anel de noivado chiquérrimo de família e faz o favor de perdê-lo! Como se não bastasse, seu celular é roubado. Sophie, não contente com a desgraça da personagem, faz a protagonista encontrar um celular no lixo e Poppy passa a ser secretária do misterioso (e lindo) Sam Roxton, pois era a função ocupada pela antiga dona do telefone. 

Imagem retirada do link: https://hdymissthing.wordpress.com

Parece loucura, não é? Sophie Kinsella utiliza essa maluquice toda para narrar os dramas, receios e micos vivenciados por Poppy.
O livro é um pouco comprido, já que acontecem várias coisas na vida louca de Poppy. Além de que, conforme a história se desenrola, a autora vai despertando cada vez mais a curiosidade do leitor, com as trocas de mensagem entre a Poppy e o Sam, o noivado... Portanto, a leitura acaba sendo bem rápida.
Mesmo sendo clichê em alguns aspectos, Sophie consegue abordar temas como relacionamentos familiares, traição, amor e muitas situações verdadeiramente hilárias, de forma inteligente, sem que fique "forçado" ou exagerado, conseguindo unir os assuntos com leveza.
Fiquei Com Seu Número é um livro muito divertido, perfeito para termos nossa primeira experiência com romances chick lit's!

terça-feira, 29 de maio de 2018

A Garota Italiana: Mais que um romance mel com açúcar

Meus caros, quem já não se imaginou vivendo uma linda história de amor, como nos contos de fadas? Quem já não suspirou lendo as páginas de um romance com um final feliz?
Esse é justamente o início da história de Rosanna Menici, a protagonista do romance A Garota Italiana, escrito por Lucinda Riley (uma das minhas autoras prediletas, a propósito).


Rosanna é uma garota italiana (ah, não me diga!) que vive e trabalha com a família numa cantina em Nápoles, e contradizendo sua aparência frágil, ela é dona de uma potente voz e, aos 11 anos, com a ajuda de seu irmão mais velho, Luca, e um empurrãozinho de Roberto Rossini (um cantor de ópera rico, famoso e mulherengo, por quem Rosanna nutre um amor platônico), ela inicia aulas de canto e parte para Milão em busca da realização de seu sonho de cantar ópera nos lugares mais prestigiados.
Depois de muito treino e dedicação, Rosanna canta, pela primeira vez, com Roberto. Os dois tem uma química única que arranca aplausos de toda a Europa. Enquanto Rosanna é o estereótipo de boa moça, que agora vive com o irmão (aspirante à padre), Roberto é o bad boy e se torna amante de Donatella, uma mulher impetuosa, cujo marido, milionário, tem total ciência de suas traições. Depois de entender seus sentimentos por Rosanna, Roberto alega que vai se tornar uma pessoa melhor e implora à Rosanna que seu amor (recém declarado) seja correspondido.
Até aí, qualquer um diz que é só mais um romance clichê, em que os dois brigam o livro inteiro e ficam juntos no final. Mas, é justamente nesse ponto que você, meu caro, se engana.
Rosanna e Roberto se casam sim, mesmo tendo somente a paixão pela música em comum, e é assim que começam os problemas e o enredo do livro. A autora, com seu jeito único de contar uma boa história de amor, nos faz perceber que Roberto é um marido abusivo e que Rosanna não é só apaixonada, mas obcecada por ele, afastando-se de todos e de tudo o que ama (inclusive seu filho) para atender aos caprichos do marido. Lucinda faz os personagens vivenciaram situações que qualquer pessoa que já esteve em um relacionamento abusivo se identificará. Desde uma reclamação de Roberto referente às roupas de Rosanna, à uma discussão acalorada devido ciúme excessivo, sendo que o cônjuge está, de fato, em adultério.
A Garota Italiana é um livro extenso, mas que faz valer a pena cada página lida. Há muitas (muitas!!) reviravoltas e cenas que fazem o leitor emitir um sonoro: "Não acredito!". São várias histórias e acontecimentos que se entrelaçam e que ruminam num esplêndido espetáculo de ópera.
Lucinda utiliza as belíssimas paisagens europeias para contar essa história de determinação, traição, superação, amor, libertação e coragem para se desvencilhar daquilo que não nos faz bem. O livro não se fixa apenas em Roberto e Rosanna, mas, nos confrontos internos de Luca, um padre que almeja cair em tentação, o sofrimento dos amigos e familiares de Rosanna, que percebem que ela está morrendo por dentro, mesmo que não admita...
Lucinda escreve de forma muito emocionante e detalhista, mas, em nenhum momento é entediante. Ela capta os sentimentos com as palavras com muita sensibilidade. Recomendo demais essa leitura.
Esse livro é, na verdade, uma inspiração para aqueles que pensam que não conseguem ser felizes sem dependerem do amor de alguém. A mensagem que Lucinda nos traz é muito importante, e digo, até essencial, pois, temos que nos completar por nós mesmos, para que se nós encontrarmos alguém que nos mereça, possamos transbordar. Existem vários Robertos e Rosannas mundo a fora, e é preciso que eles se libertem de um sentimento, que pode parecer libertador, mas que na verdade, só nos torna vítimas de nós mesmos.

Como lidar com Farenheit 451?

Queridos leitores, há uns dias li Farenheit 451, do estadunidense Ray Bradbury, publicado originalmente em 1953. E eu não estou sabendo lidar!


Imagine um mundo em que os bombeiros não apagam incêndios, mas que os criam, para apagar os livros, que são terminantemente proibidos (independente do gênero textual). Imagine um mundo em que todo tipo de conhecimento ou pensamento crítico é proibido, criminalizado e reprimido de forma extrema. Imagine um mundo em que: "A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias, as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e, por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas?”
Parece difícil de imaginar, não é? E é exatamente a esse mundo que Ray Bradbury nos leva em suas páginas, ao escrever Farenheit 451, de forma objetiva, angustiante e absurdamente inteligente.
O livro narra a história de Montag, um bombeiro, que ao encontrar Clarisse, uma adolescente que, definitivamente, não segue as leis e vive a questionar os acontecimentos da natureza e o funcionamento do sistema de governo, leva o protagonista a despertar sua própria consciência. Montag passa a duvidar daquilo que ele sempre acreditou ser correto. Ou melhor, do que lhe impuseram como correto. Ele questiona seu próprio casamento, seu trabalho, seu capitão do corpo de bombeiros, seus vizinhos e tudo o que existe. E quanto mais ele questiona, mais próximo da prisão e da morte ele se encontra.
Em meio a citações de livros e de autores mundialmente famosos, Montag se encontra com um antigo professor universitário e juntos criam um plano para sobreviverem no caos dessa sociedade distópica.
Esse livro é surpreendente. Escrito de forma bastante clara, sem palavras muito rebuscadas, mas, mesmo assim, é um livro esplêndido. Uma ficção científica que faz crítica a repressão e que possui reviravoltas e fugas de nos tirar o fôlego. Com esse livro é possível perceber quão importante os livros são para a sociedade como um todo. Quando terminei a leitura, pensei: "O mundo precisa ler isso!".

Foram produzidos dois filmes inspirados nessa obra. O primeiro em 1966, dirigido por François Truffaut, com Oskar Werner no papel de Montag. E o segundo, de 2018, exibido pela HBO, com Michael B. Jordan (suspiro) como protagonista.



segunda-feira, 28 de maio de 2018

Por que você PRECISA ler Um Mundo a Parte?

Meus caros, acabei de ler a última página de Um Mundo a Parte, da célebre escritora norte-americana, Jodi Picoult, que é autora de My Sister Keeper's, que foi adaptado ao cinema, num filme estrelado por Cameron Diaz, (título traduzido como Uma Prova de Amor). Além de ter vencido o prêmio New England Bookseller de ficção em 2003.



Mundo a Parte foi publicado em 2013 e foi a primeira vez que li um livro da Jodi. Eu só o li porque uma amiga sugeriu que nós deveríamos ler algum livro juntas para podermos "surtarmos" com o enredo. Minha primeira sugestão foi A Lista, de Cecelia Ahern, autora do meu estimado PS Eu Te Amo. Mas, como minha amiga não é muito fã de romances, acabamos escolhendo Um Mundo a Parte, que era realmente a parte para nós. Resumindo, o livro (de mais de 500 páginas) acabou sendo devorado em menos de uma semana, graças a escrita frenética, emocionante e intensa da autora. O livro é narrado ora pelo personagem principal, ora pelos coadjuvantes que são de extrema importância para a história e que acabam se tornando protagonistas também.
Um Mundo a Parte nos faz entender como funciona a mente de um portador de Asperger, contando a história de Jacob Hunt, um jovem de 18 anos que possui Síndrome de Asperger e que vive numa luta constante para encontrar seu lugar na sociedade. Ele é inteligente, irônico e tem mania de organização de objetos em ordem alfabética e pelas cores do arco-íris, odeia quando sua rotina é quebrada e, infelizmente (ou felizmente?) é obcecado por criminologia e ciência forense. Jacob é rodeado de carinho, super proteção e abundante preocupação de sua mãe, Emma Hunt, que foi abandonada pelo marido e cria Jacob e Theo (o caçula revoltado de 15 anos) sozinha, abdicando de toda a sua vida, sua alegria, dinheiro e até mesmo, sua feminilidade, para viver por e pelo Jacob.
A vida normal dessa família é composta por rotinas inquebráveis e regras que podem ser ridículas as nossas vistas, mas que para uma mãe que sofre com crises nervosas diárias do filho, são essenciais.
Mas, tudo muda radicalmente quando a família Hunt se depara com a notícia da morte de Jess Ogilvy, uma jovem alegre e generosa que é a orientadora e melhor amiga de Jacob, responsável por auxiliar o rapaz a interagir com as pessoas em sociedade. Emma, Jacob e Theo, que até então só recebiam visitas de orientadores e psiquiatras, tiveram a intromissão de um detetive e um advogado em suas vidas, quando Jacob se torna o principal suspeito do assassinato de Jess.
O clima de suspense policial é só o pano de fundo que a escritora utiliza para nos levar numa viagem para dentro da mente completamente diferente de Jacob, de uma mãe que ama incondicionalmente e se doa completamente ao filho, de um irmão que sofre as consequências do preconceito que a sociedade mostra àquilo que não é típicamente "normal", de um detetive que não sabe lidar com a sua própria vida e de um advogado que acabara de se formar e já se vê numa "bela" enrascada.
Jodi consegue, com maestria, mesclar os capítulos narrados pelos personagens, fazendo os leitores se emocionarem, se colocarem no lugar do outro, rirem e entenderem o que, de fato, é o Asperger. Eu, por exemplo, não fazia ideia das dificuldades enfrentadas por uma pessoa com essa síndrome.
O livro é comprido, mas, a leitura é envolvente e flui de forma deliciosa e rápida e com palavras de fácil entendimento. Com ritmo de romance policial, pitadas de ciência e um enredo lotado de reviravoltas e situações que nos levam a pensar nas nossas próprias vidas e na maneira como agimos mediante alguém que é portador de alguma necessidade especial.
Eu, envergonhada, confesso que subestimei o livro e a autora. Já estou escolhendo outro livro da Jodi para começar a ler. E tenho certeza que será tão bom ou melhor que Um Mundo a Parte.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

O Que Esperar dos Livros da Saga Desventuras em Série?

Uma xícara quente de café/chá/leite com Toddy, a chuva fina batendo à janela, o zumbido do vento, um cobertor, um quarto aconchegante e um livro nas mãos. Que cena perfeita. Eis que você abre o livro e logo nas primeiras palavras, o narrador diz: “Se vocês se interessam por histórias com final feliz, é melhor ler algum outro livro. Vou avisando, porque este é um livro que não tem de jeito nenhum um final feliz, como também não tem de jeito nenhum um começo feliz, e em que os acontecimentos felizes no miolo da história são pouquíssimos (...). Lamento ter que dizer isso a vocês, mas o enredo é assim, fazer o quê?”. 

Pode parecer estranho e, no mínimo, curioso, mas é exatamente dessa forma que o norte-americano Daniel Handler, trajado de Lemony Snicket, o melhor narrador-personagem já visto, ou melhor, já lido, inicia sua obra, Mau Começo, o primeiro livro da saga Desventuras em Série, composta por 13 livros, publicados no início dos anos 2000.

Nos livros, Lemon Snicket narra (e participa) das desgraças (literalmente), de três órfãos, os irmãos Baudelaire, que vivem (des)aventuras numa sala cheia de cobras, numa serralheria maligna, num colégio infernal, num circo de horrores, numa cidade sinistra, num submarino e até num apartamento de luxo, tudo para escapar das garras do Conde Olaf, que almeja, mais que tudo na vida, pôr suas mãos imundas na herança das crianças. A história é repleta de aventuras e escrita de forma bastante perspicaz, pois, além de personagens caricatos e, até mesmo, parecidos com pessoas que os leitores conhecem ou já conheceram na vida, ao longo dos 13 livros, percebemos o amadurecimento dos três habilidosos jovens, a astúcia do Conde Olaf cada vez mais aguçada e o envolvimento do próprio narrador na vida dos Baudelaire cada vez mais evidente.

Os livros têm situações que nos fazem prender a respiração e também nos trazem a mensagem que através do amor fraterno e da bondade, adquirimos coragem para enfrentar os piores problemas e para não mostrarmos omissos diante de obstáculos, além de contribuirem para a expansão do vocabulário dos leitores, já que o narrador utiliza palavras complicadas e nos oferece os significados e sinônimos de acordo com o contexto vivenciado pelos personagens. 


Alguns podem até se assustar com a quantidade de livros nessa série, mas eles são curtos, tendo uma média de 100/150 páginas cada um, possuindo ilustrações excelentes, e Daniel/Lemony acertam (e muito), porque o narrador, não apenas narra, não apenas participa, ele conversa com o leitor, misturando excentricidade, aventura, melancolia e, o melhor, muito (muito) sarcasmo. Sem contar que são tantos acontecimentos e tantas reviravoltas ao virar de uma página, que a leitura flui rapidamente, deixando o leitor roendo as unhas para saber qual a próxima desventura que sobrevirá aos Baudelaire.

Em 2004 foi lançado o filme Desventuras em Série, que conta com ninguém mais, ninguém menos, que Jim Carrey no papel do excêntrico e malvado Conde Olaf, adaptando as histórias dos três primeiros livros da série: Mau Começo, a Sala dos Répteis e O Lago das Sanguessugas. Particularmente, prefiro o filme que a série, estreada em 2017, produzida pela (aclamada) Netflix. A série é mais fiel à ideia original do autor, dividindo os episódios de acordo com os livros, com Neil Patrick Harris (sim, o legendário Barney, de How I Met Your Mother) interpretando o Conde Olaf. No entanto, o filme conseguiu capturar muito bem a melancolia e aflição na vida dos Baudelaire, mesmo com a história adaptada. Já a série, aborda o aspecto mais infantil do livro. 

Desventuras em Série (Filme de 2004)

Conde Olaf - Jim Carrey / Neil Patrick Harris
Desventuras em Série (Série de 2017)