quinta-feira, 9 de novembro de 2023

A Humanidade que há em nós

 Aviso: este texto contém spoilers do anime e mangá HunterxHunter.

Quando nos deparamos com frases como: “seja mais humano”, “isso foi muito humano da sua parte”, “precisamos de mais humanidade”, por exemplo, já entendemos que “humano” e “humanidade”, nesses casos, representam não ser uma pessoa de carne, osso e habilidades mentais, emocionais e afins, mas ser essência. Ser caridoso, compassivo, amável, bondoso.


E isso está até nos dicionários. Vejamos, a palavra humano significa relativo ao homem ou próprio de sua natureza e condição; que mostra sentimentos de compaixão, benevolência ou solidariedade; criatura; homem; indivíduo. E humanidade é a qualidade do que é humano, sentimento benévolo e solidário em relação aos outros.


Mas será que realmente somos bons em nosso âmago? Há quem diga que o homem é o lobo do homem. Também falaram que o homem nasce bom, mas que a sociedade o corrompe. Uns chegaram no consenso de que o homem tem tendências tanto más quanto boas.

Fato é que nós, sendo dotados de toda a nossa humanidade, somos capazes de fazer coisas extraordinárias. O avião, a arte, as vacinas, a internet. Ao passo que também criamos atrocidades. A bomba atômica, o preconceito, a escravidão, a internet. Considerando isso, a definição de ser humano deveria estar conectada necessariamente à bondade?

Yoshihiro Togashi, mangaká, nos faz a mesma pergunta, e muitas outras, em sua obra HunterxHunter, sobretudo no arco Quimeras Ants (ou Formigas Quimeras) publicado entre os capítulos 186 e 318 do mangá, e veiculado, através do anime de 2011, dos episódios 76 ao 136.


As formigas quimera são uma espécie fictícia de inseto, considerada uma calamidade, cuja rainha se reproduz através de um método curioso: ela devora seres vivos (inclusive humanos) e gera em seu ventre uma mistura, por assim dizer, desses seres. Por exemplo, quando ela se alimenta de um leão e um ser humano, nasce um híbrido desses dois. Depois de criar soldados para o seu ninho, a rainha começa a gestar o rei, que deve ser a máxima evolução de toda a espécie.


Como no universo de HunterxHunter há os “hunters”, que são humanos com habilidades sobrenaturais, específicas e diversas, a rainha e seus súditos entendem que o rei será o ápice entre todas as criaturas caso sua gestação seja regada à carne e sangue dos tais.


Entre os desafios paralelos da trama, nasce Meruem, o rei destinado a governar o mundo inteiro (não somente as quimeras), que sente a necessidade de se alimentar de humanos e hunters para aumentar ainda mais a sua força, sabedoria e poder, que já são descomunais. Portanto, toma um palácio e faz dele seu armazém de carne humana. E, ao ser questionado por uma de suas vítimas, ele pergunta algo como: “não é o que vocês, humanos, fazem com porcos e gado?”. Com isso, o autor esboça parte de um grande ponto de interrogação que vai se formando ao longo da saga: somos mesmo muito diferentes das quimeras?


Como ideia de sua guarda-real, o rei reunirá todos os habitantes de uma nação para selecionar os que serão descartados (e mortos), devorados ou transformados em quimeras, que servirão de soldados. Mas enquanto aguarda a população, hipnotizada, chegar ao palácio, Meruem se entedia e começa a enfrentar campeões mundiais de diferentes jogos de tabuleiro, até se deparar com Komugi, especialista no jogo fictício gungi, uma moça ingênua, cega, que nunca havia sido tratada com dignidade e que, diferentemente dos outros oponentes do rei, não se deixou derrotar uma única vez. Com o passar dos dias, ambos se apaixonam (embora não percebam) e as certezas megalomaníacas e cruéis de Meruem começam a vacilar. Por que vencer não era mais importante? Por que ainda não matou sua adversária? Por que queria protegê-la? Ele realmente teria que dominar o mundo? No entanto, antes mesmo de ele começar a entender o sentido de sua própria existência e o que estava sentindo, um grupo de hunters invadem o palácio e, acidentalmente, ferem Komugi. O rei não entende seus sentimentos excruciantes a princípio, mas aparenta desespero e total desolação. Sem mencionar qualquer desejo de vingança, ele dedica à Pitou, membro de sua guarda-real, a responsabilidade de curar e proteger Komugi enquanto ele se afasta, junto ao presidente dos hunters, Netero, que o desafiou.

Meruem e Netero partem para um deserto utilizado como local de testes bélicos (para se ter uma ideia do poder e capacidade destrutiva de ambos) e, ainda que Netero tenha ficado impressionado em enxergar a humanidade do rei quimera carregando, quase como se estivesse de luto, uma Komugi ferida nos braços, e mesmo Meruem manifestando que não quer lutar, mas, sim, conversar e debater ideias, o presidente dos hunters não dá trégua e tenta, de todas as formas, matar o rei. Com golpes baseados em sua religiosidade e misticismo, Netero alega que é possível sentir o amor incondicional em seus ataques. Amor esse que, ironicamente, busca a morte de um inimigo que já não queria mais lutar.



Ao final da batalha, percebendo que não conseguiria matar Meruem, Netero acionou uma bomba atômica que estava implantada em seu próprio coração e carbonizou a si mesmo e a Meruem. Me arrisco a dizer que a humanidade matou ambos.


Posteriormente, a guarda-real consegue ressuscitar Meruem e salvar Komugi, mas acabou sendo tudo tarde demais. A bomba que Netero carregava continha um veneno contagioso que mataria, em algumas horas, Meruem e todos que ficassem próximos a ele. Portanto, numa cena digna de Romeu e Julieta, com um diálogo carregado de emoção e absurdamente triste, sem qualquer trilha sonora e imagem, Meruem (apaixonado, arrependido de suas ações e disposto a mudar se houvesse tempo) e Komugi (por escolha própria) morrem juntos, envenenados, jogando uma última partida de gungi e sentindo-se, pela primeira vez em suas curtas e desventurosas vidas, felizes.





Finalizando a saga, não é possível dizer com convicção quem é o vilão: o rei formiga ou o presidente dos hunters? 

Quem foi mais humano: Meruem, que se arrependeu e sentiu que se vivesse para amar Komugi, nada mais importava, ou Netero que, a todo custo, tentou matar o que ele julgou ser ameaçador e diferente, sem dar chance à compreensão, caridade e remissão? 

Qual foi mais cruel: Aquele que um dia ansiou, através da morte alheia, o aumento de seu poder, ou quem implantou uma arma de destruição em massa em seu próprio coração?


O que faz de nós, humanos, tão diferentes de Meruem? O que a humanidade tem que a torna tão superior e louvável? Somos tão honrosos e respeitáveis assim? Afinal, o que é ser humano?