Aviso: este texto contém spoilers do anime e mangá HunterxHunter.
Quando nos deparamos com frases como: “seja mais humano”, “isso foi muito humano da sua parte”, “precisamos de mais humanidade”, por exemplo, já entendemos que “humano” e “humanidade”, nesses casos, representam não ser uma pessoa de carne, osso e habilidades mentais, emocionais e afins, mas ser essência. Ser caridoso, compassivo, amável, bondoso.
E isso está até nos dicionários.
Vejamos, a palavra humano significa relativo ao homem ou próprio de sua
natureza e condição; que mostra sentimentos de compaixão, benevolência ou solidariedade;
criatura; homem; indivíduo. E humanidade é a qualidade do que é humano, sentimento benévolo e solidário em relação aos outros.
Fato é que nós, sendo dotados de
toda a nossa humanidade, somos capazes de fazer coisas extraordinárias. O avião, a arte,
as vacinas, a internet. Ao passo que também criamos atrocidades. A bomba
atômica, o preconceito, a escravidão, a internet. Considerando isso, a definição de ser
humano deveria estar conectada necessariamente à bondade?
Yoshihiro
Togashi, mangaká, nos faz a mesma pergunta, e muitas outras, em sua
obra HunterxHunter, sobretudo no arco Quimeras Ants (ou Formigas Quimeras)
publicado entre os capítulos 186 e 318 do mangá, e veiculado, através do anime
de 2011, dos episódios 76 ao 136.
As formigas quimera são uma
espécie fictícia de inseto, considerada uma calamidade, cuja rainha se reproduz
através de um método curioso: ela devora seres vivos (inclusive humanos) e gera
em seu ventre uma mistura, por assim dizer, desses seres. Por exemplo, quando
ela se alimenta de um leão e um ser humano, nasce um híbrido desses dois.
Depois de criar soldados para o seu ninho, a rainha começa a gestar o rei, que
deve ser a máxima evolução de toda a espécie.
Como no universo de HunterxHunter
há os “hunters”, que são humanos com habilidades sobrenaturais, específicas e
diversas, a rainha e seus súditos entendem que o rei será o ápice entre todas
as criaturas caso sua gestação seja regada à carne e sangue dos tais.
Entre os desafios paralelos da
trama, nasce Meruem, o rei destinado a governar o mundo inteiro (não somente as
quimeras), que sente a necessidade de se alimentar de humanos e hunters para
aumentar ainda mais a sua força, sabedoria e poder, que já são descomunais. Portanto,
toma um palácio e faz dele seu armazém de carne humana. E, ao ser questionado por
uma de suas vítimas, ele pergunta algo como: “não é o que vocês, humanos, fazem com
porcos e gado?”. Com isso, o autor esboça parte de um grande ponto de interrogação que vai se formando ao longo da saga:
somos mesmo muito diferentes das quimeras?
Meruem e Netero partem para um
deserto utilizado como local de testes bélicos (para se ter uma ideia do poder
e capacidade destrutiva de ambos) e, ainda que Netero tenha ficado
impressionado em enxergar a humanidade do rei quimera carregando, quase como se
estivesse de luto, uma Komugi ferida nos braços, e mesmo Meruem manifestando que
não quer lutar, mas, sim, conversar e debater ideias, o presidente dos hunters
não dá trégua e tenta, de todas as formas, matar o rei. Com golpes baseados em
sua religiosidade e misticismo, Netero alega que é possível sentir o amor
incondicional em seus ataques. Amor esse que, ironicamente, busca a morte de um
inimigo que já não queria mais lutar.
Ao final da batalha, percebendo que não conseguiria matar Meruem, Netero acionou uma bomba atômica que estava implantada em seu próprio coração e carbonizou a si mesmo e a Meruem. Me arrisco a dizer que a humanidade matou ambos.
Posteriormente, a guarda-real
consegue ressuscitar Meruem e salvar Komugi, mas acabou sendo tudo tarde demais. A bomba
que Netero carregava continha um veneno contagioso que mataria, em algumas horas, Meruem e todos que ficassem próximos a ele. Portanto, numa cena digna de
Romeu e Julieta, com um diálogo carregado de emoção e absurdamente triste, sem qualquer trilha
sonora e imagem, Meruem (apaixonado, arrependido de suas ações e disposto a mudar se
houvesse tempo) e Komugi (por escolha própria) morrem juntos, envenenados,
jogando uma última partida de gungi e sentindo-se, pela primeira vez em suas
curtas e desventurosas vidas, felizes.






Amei o blog 😍👏🏿
ResponderExcluirMari, vc sempre levantando questionamentos dignos de uma bela discussão. Parabéns pela sua escrita impecável! 👏🏿👏🏿 Deu até vontade de ver o anime.
ResponderExcluirQue incrível!!! Estou finalizando esse anime e ele é maravilhoso. Vc conseguiu discorrer muito bem sobre esses pontos tão sensíveis e críticos que o autor colocou em pauta na obra. Parabéns pelo post.
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